Anjo
preso ao chão
Se eu me matasse agora, isso demonstraria o quão egoísta eu sou. Talvez
eu devesse fugir por um tempo, mas isso demonstraria a quão fraca eu sou. Não
sei por que esse desejo me atormentara agora, só sei que eu sinto que algo ruim
esta por vim. Talvez hoje eu fosse morrer.
Eu escrevia isso, olhando
para todos os bilhetes no chão, o que ele queria de mim, eu não sei. No
primeiro ele dizia que “a diversão começou agora”. Depois encontrei em frente
aos meus ursos outro que dizia que “seu fim está próximo”. O terceiro eu
encontrei dentro do meu diário, ele dizia “que pena você não é tão bonita”. O
ultimo eu encontrei junto a meu travesseiro queimado, ele dizia “vamos
brincar?”. Eu já estava cansada daquilo, e com muito medo.
No momento em que toquei aquele papel, pude sentir o medo correr por
minhas veias. Ninguém mais havia sido encontrado morto, talvez eu fosse à
próxima.
Não tive a menor vontade
de ir para a aula hoje, tudo o que eu queria era me esconder do mundo e dele.
Pela primeira vez eu não estava mal por não saber se algo de interessante havia
acontecido na escola, nem todos os segredos que perdi. Tudo o que eu queria era
está livre, era como se eu estivesse presa ao chão.
Levantei-me, tomei um
banho, e prendi meus cabelos ainda molhados em um rabo de cavalo, calcei meu all star
velho e minha calça desbotada, vesti um moletom preto, e sai para comprar algo
para comer. Quando cheguei à padaria uma mulher simpática estava esperando que
alguém a atendesse.
– Olá. – Nossa, ela notou
minha presença.
– Oi. – Falei desanimada.
– Parece que ninguém quer
vim nos atender. – Ela falou sorrindo.
Ela tinha o cabelo
castanho escuro liso, estava cortada em camada e na altura dos seus ombros, sua
pele era bonita, bem cuidada, e pareciam ter um pouco mais de trinta anos, seus
olhos azuis se destacavam em seu rosto claro, sua boca era levemente carnuda, o
nariz bem feito, e um corpo que eu queria ter. Suas bochechas rosadas
ressaltavam o seu rosto, seu sorriso era bonito.
– O que a senhora vai
querer? – Falou o homem me ignorando plenamente.
– Eu quero um cappuccino e um pãozinho.
Ele trouxe o que ela
pediu, os outros garçons estavam atendendo outras pessoas, a maioria me
ignorava como se não me visse. A mulher se levanta e fala com um dos
atendentes.
– A moça está a um bom
tempo aqui, você deveria atender-la.
– Desculpe-me, eu não
tinha visto. – Que legal, eu sou invisível. – O que a senhorita deseja?
– Um suco de melancia, um
pão de mel e uma trufa.
Ele entregou meu pedido, a
senhora me chamou, acho que ela queria que eu sentasse perto dela.
– Minha filha nunca
comeria um pão de mel, ela mal come.
– Qual o nome da sua
filha?
– Cecília. Desculpa-me por
não ter me apresentado antes, meu nome é Elisabeth Miller.
– Prazer. Meu nome é
Cassie.
– Você conhece minha
filha?
– De vista, ela é do
terceiro, eu sou do primeiro. – Eu sorri. – Mas a senhora é tão nova para ser
mãe dela.
– Que é isso, já passei
dos quarenta.
– Nossa! Não parece. – Não
parecia mesmo.
Passamos algum tempo
conversando e depois ela foi para a sua casa, ela me ofereceu uma carona, mas
eu falei que iria correr. Corri até passar em frente à escola, percebi que
todos os alunos já haviam saído. Dei umas voltas e passei em frente uma
soverteria, vi Cecília, Alice e Mariana sentadas conversando. Resolvi entrar e
sentei próximo a elas. Quando eu não queria ser notada, a garçonete aparece.
– O que a senhorita vai
querer?
– Um sundae de chocolate, com chantili
e cereja. – Minha nossa desse jeito eu ia engordar ainda mais.
Ela trouxe meu sundae, as
meninas não conversavam nada de interessante. Até que um rapaz em torno de
vinte dois a vinte seis anos se aproximou das meninas, ele era loiro, alto,
tinha os olhos castanhos claros e pequenos, o cabelo um pouco bagunçado e a
baba mal feita. Ele era simplesmente lindo, um dos caras mais lindo que eu já conheci.
– Miguel. – Gritou Mariana
animada. – Meninas, esse é o meu irmão Miguel, e essas são minhas amigas Alice
e Cecília. – Disse ela apontando para cada uma.
– Muito prazer em
conhecê-las. – Disse ele sorrindo.
– Sente-se conosco. –
falou Alice se insinuando descaradamente. – Você é muito alto para ser irmão da
Mari, mas tem um sorriso lindo que nem ela.
– Porém não tão lindo
quanto o seu.
– Acho que nós estamos
sobrando. – Disse Cecília para Mariana.
– Quantos anos você tem? –
Perguntou Alice.
– vinte e oito.
– Você fez faculdade de
que? – Alice normalmente vai primeiramente para a cama e depois pergunta o
nome.
– Eu sou cientista
político, eu cursei em Yale.
– Ele mora em Nova Iorque,
mas está pensando em morar aqui. – Mariana parecia entusiasmada.
Mariana e Alice foram para
o banheiro, deixando Cecília e Miguel as sós.
– Nós poderíamos sair
qualquer dia desses, só nós dois. – Cecília parecia não entender as palavras de
Miguel.
– Penso que a Alice não
vai gostar muito disso.
– Ela vai entender. – Ele
tocou a mão dela. – Posso te pegar na sexta à noite?
– Tudo bem, eu acho.
– Não se preocupe, Mariana
pode me ensinar onde é a sua casa.
Miguel foi embora. Depois
as meninas voltaram.
– Cadê ele? – Perguntou
Alice
– Já foi. – Disse Cecília
sorrindo.
– Cecília tem o dom de
espantar os homens. – Disse Alice rindo.
Elas continuaram
conversando, depois de um tempo elas foram embora e eu pedi a conta a
garçonete.
– Quanto é?
– Não precisa, um rapaz
pagou e deixou esse bilhete. – Disse ela me entregando o papel.
– Quem é esse rapaz? Não
sei, ele estava com um capuz preto, fiquei até com medo.
Sai da soverteria. Eu
estava com medo de abrir o bilhete. Até que eu resolvi ler o que tinha escrito,
desta vez foi escrito a mão.
Pensei que depois dos meus bilhetes você não iria mais sair de casa.
Não consigo entender o que
ele quer tanto comigo, se quisesse me matar já teria feito isso, mas algo que
me incomodava mais do que os bilhetes, era não saber quem era ele. Voltei para
casa e me tranquei no meu quarto olhando para o bilhete, agora eu sabia pelo
menos como era a letra dele, se é que era a letra dele.

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